As cartas estão na mesa. Na mesma. De costas, são todas iguais. Tem todas o mesmo valor, mas quando se viram, é cada uma por si. Sem jogador, é anunciada a guerra. Cada carta sabe o que deveria fazer, mas nenhuma faz. Amontoadas ou organizadas, formam castelos, ou fazem desastres. Em todo caso, são cartas, e, independente de ter jogador ou não, cada qual tem seu valor. As cartas correm. No jogo de Paciência, uma depende da outra. É uma ordem. Mas nem sempre as cartas querem aparecer. Preferem ficar de costa, viradas, vendadas. Paciência. É a opção. O jogo não pode continuar, e talvez não tenha motivo para tal. Mesmo assim as cartas continuam na mesa. A empolgação do início do jogo é amenizada. Por opção. A carta continua virada. Tem medo de entrar no jogo. Ou fez uma escolha. Não há porque as outras cartas se indignarem. Não existia jogo. Não existia metáfora. A carta resolveu não aparecer, e talvez, quando apareça, tudo faça sentido. Paciência.
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O sol brilha. Faz bem. O olho fecha. O reflexo é intenso. Os rostos se contorcem para se proteger dos raios. Maldosos. Queimam. A intensidade é grande. Parecia apenas mais um dia ensolarado, sem muito objetivo. Vai dar praia. Talvez. Mas veio a chuva. Forte e intensa, assim como o sol. Um grande conflito nos ares, e quem está na terra, nada pode fazer, se não correr. Se esconder é uma opção. Mas correr ainda é a mais obvia. A chuva é intensa, e arde. As gotas caem feito pregos no estrago que o sol causou. Vento. Chuva. Sol. A noite talvez seja melhor. Sem visão. Mas é dia. É sol. E chove. Enquanto todos corriam loucamente tentando se proteger, eu fiquei parado, pensando no que iria fazer. A chuva caiu. Molhou. Não teve arco-iris. De presente, ganhei uma forte gripe, que não me deixa levanter da cama. Não me deixa pensar, não sei se foi por causa do sol ou da chuva. Talvez da indecisão. Mas ela veio, e derrubou. E eu não corri. Não me escondi. Achei que seria forte o suficiente para ficar ali, enquanto o sol queimava e a chuva molhava. Escolhi um lugar bom para o arco-iris. Mas ele não apareceu. Eu não fui forte. Hoje eu não levanto. Amanhã talvez, mas não há antibiotico.
A cabeça estoura! Pum! É fim de ano. Não só do ano. Não há fogos de artifício. Mas é artificial. Mesmo sem fogo, queima. Quem disse que o gelo não queima? Todos comemoram, mas a alegria não contagia. Os brindes são em vão. Ora, não é fim de ano. Mas a cabeça estoura feito fogos de artifício. As cores se perdem, e de repente, tudo está cinza. O branco da paz não é mais branco. Esta sujo. E o que era escuro, agora pode ser visto. Cinza. Foi o que sobrou dos estouros. É o que está por trás do colorido dos fogos de artifício. Ninguém quer ver. É perigoso. Mamãe já dizia “fique longe dos fogos”. Enquanto tudo explode. O colorido brilha, o céu é purpurina. Reflete no mar. A cabeça estoura, e o reflexo reluzente do que brilha colorido no céu, fazendo todos sorrirem, não passa de um reflexo. É o brilho artificial na escuridão. No fim das contas, o que cai no mar são as cinzas. Sem cor. Sem brilho. Sem sorriso. Só cinza. A luta entre e preto e o branco. Entre a paz e a treva. O embate infinito, e a cabeça estoura. Pum! Cinza. Opaco. O cinza. Pum!
No momento, a melhor opção era um tênis. Descolado, confortável, ora rebelde e ora comportado. Outras garotas ficariam com o sapato, talvez uma bota, mas ela, o tênis. Pisou muito com aquele par de tênis. Desgastou um pouco, mas nada que prejudicasse. Um furo aqui, outro ali, e os remendos começaram a apertar o pé. Já não era mais confortável, e o lado rebelde do tênis foi entoado. Começou a ficar chato. A sola ficou desgastada, e os furos não foram remendados. Ela não queria mais aquele tênis. Não era a vez dele, e não havia valor. Se houvesse, a sola seria trocada novamente, os furos remendados. Nem que precisasse refazer quase o tênis todo. Mas não havia valor. Ela optou pelo sapato. Talvez queria se sentir mais mulher. Aquela sensação toda que o sapato causa, que muda até no jeito de andar. Era hora de mudar. E ela mudou. Foi independente. Mas ficou dependente. Não consegue soltar o sapato. O salto pode prejudicar seu pé. É impossível andar de sapato salto alto como se fosse um tênis ralado. Em um momento que exige uma corrida, ou um passo rápido, pode vir um tombo. Tem que saber andar com o sapato. Enquanto isso, aquele tênis que foi largado no canto, e em determinado momento, foi colocado lá em baixo pelo luxo do sapato, agora não tem mais furos, mas continua desgastado. Dentro da caixa, ela nunca irá vê-lo. Um tombo com sapato pode ser fatal. Cuidado com o salto, e não corra.
Ela é boa. Magnífica, perfeita, maravilhosa, não há adjetivos para descrevê-la. A melhor de todas. Se a perfeição existisse ela estaria ali. Ou muito próximo. Um dia alguém atirou uma pedra na janela. Não quebrou. Eu vi que não voou estilhaços. Mas assustou. Doeu. Ninguém gosta da dor, é claro. Ela se protegeu. Colocou uma placa de aço na frente da janela. Agora não há mais pedras. Mesmo que houvesse, haveria um barulho. Restou o silêncio. Até as palmas. Era o atirador de pedras, chamando na porta. Ele parecia falar outra língua, parecia maluco, chorava compulsivamente. Ela ficou receosa, se assustou quando viu que havia mais pedras na mão do atirador. Mas ele não iria arremessá-las. Só estava lá pedindo desculpas. E as pedras, as pedras eram só para mostrar que ele nunca mais faria aquilo. Estava arrependido. Mas ela se assustou de novo. O atirador explicou, inúmeras vezes. Em vão, ela não acreditava. Achava que ele jogaria pedras novamente na janela. E ele, só queria tirar aquela placa de aço da frente da janela, e deixar o sol entrar novamente. Como antes da pedrada. Agora a porta foi trancada. O portão também. O atirador permanece sentado em frente ao portão, esperando que, no dia em que ela sair, ele consiga pedir desculpas, e ela, a perfeição, consiga entender que o atirador, em hipótese alguma, mirou na janela. O atirador não desiste, porque nem atirador ele é, e antes de desculpar-se, ele precisa mostrar que não é de fato um atirador, e que a janela não quebrou. Dia e noite, noite e dia, e ele permanece sentado, esperando o dia em que a porta se abrirá, e, fraco como está, ele vá engatinhando até os pés da perfeição e, mesmo que leve um chute, consiga ser compreendido.
A janela não quebrou.
O carteiro passa todo dia. Nem sempre para. Mas hoje é um dia especial. Tenho certeza que ele vai parar. Nem que seja para falar “oi”. Ou um consolo. Talvez não tenha entrega. Talvez ele venha de caminhão, e grite”Olha, é tudo seu”. Ah como eu queria. Iria explodir. Iria voar sorrisos para todos os lados. Estilhaços de alegria, de paixão. Mas e o carteiro? Ele pode ter receio. E se eu não prender o cachorro? Ora, eu não tenho cachorro. E se chover? Ora, está sol. E se ele simplesmente não quiser passar aqui. Se ele fingir que esqueceu, ou então, como os garotos que panfletam cardápios de pizzaria, resolver jogar tudo fora. Tudo no rio. Ah, seria uma grande perda. O perfume caindo naquela água imunda. Aquela fragrância, que eu tanto desejei, indo embora. Porra carteiro, você não seria capaz disso, né? E se ele falasse “nada pra você hoje”? Ele, com toda certeza, cuspiria tesouras, que, além de perfurar, cortariam em pedaços o sonho, cortaria aquele caminhão em mil partes. O vento é forte, eu não conseguiria juntar tudo. E você, carteiro? Não passe batido. Por favor, não finja que não me viu, pois eu te acompanho, e de longe, sei os seus passos. Estou aguardando. Nem que eu precise me vestir de carteiro.
Sempre achei que estivesse comigo. Mas dessa vez perdi. Procurei em baixo da cama, no armário, no bolso da calça, na gaveta, na sala, na cozinha, no quarto. Sabia que estava por ali. Já esteve. Agora não mais. Procurei no céu, procurei na rua, no chão, e nada. As estrelas tentaram me guiar uma vez. Não dei bola. Uma pena. O sol também tentou. Idem. Como pude perder? Esteve sempre comigo. despercebido, algumas vezes. Mas estava ali. Hoje, quando acordei, dei conta que havia sumido. Alguém teria roubado? Não pode ser. Perdi mesmo. Mas tenho certeza que, cedo ou tarde, se continuar procurando, vou achar. Ah se vou! Opa, caiu uma pista no meu colo. Um começo, mas ainda não encontrei nada. O mais próximo que cheguei, foi a saudade. O cheiro da saudade, que ficou impregnado no travesseiro. Que me lembra toda noite e toda manhã. Não posso encerrar a busca. Está ali. O travesseiro dá a pista. Exala o cheiro. Motiva. Mata. Lembra que devo continuar procurando um verdadeiro motivo para sorrir. Sorrir e ofuscar a visão de todos. Não, os dentes são amarelos. Mas os olhos, ah, os olhos brilharão. Intensamente. Encontrarei. Você saberá. É incontrolável. Surreal. Você saberá, quando eu encontrar. Você saberá. Antes de tudo e de todos. Boa noite, e, amanhã cedo, bom dia.
Uma sensação estranha, uma mistura de calafrio, ânsia e uma vontade imensa de colocar tudo pra fora. Uma angustia desnorteada. É necessário correr, mas pra onde, se não tenho permissão. Peguei pena de morte mas não tenho advogado para me defender. O juiz não quer ouvir, o carcereiro não faz nem o necessário e a pia vaza. A angustia aumenta enquanto a água cai. A cama abre a boca, me chama. “Vem”. Sozinho. Não tenho onde agarrar, não tenho onde me esconder. Vou. Sem esperança, sem fé, mas vou. Aquela ânsia voltou. Preciso colocar pra fora. Não posso partir assim, sem que ninguém saiba o que realmente sinto. Um indigente, sem julgamento, condenado, e que não sabe nadar. A pia vaza. A cela enche. O coração bate, sem vontade, por necessidade. A cabeça esfria. A água sobe. A cama grita meu nome. Fico assustado. Deveria ir? Não há muita opção. Eu vou. Com medo. A cama me enganou. Não há fim, nem travesseiro. Pelo menos a água não molha. “Tec tec”. O carcereiro bate. “Acorda”. Ele se refere ao indigente. Eu. Sonhador. Pesadelo. Uma opção, talvez, melhor que a realidade de estar acordado. Pé direito no chão. Úmido. A pia ainda vaza.
